Em busca do estado de espírito performático perfeito – Atividade 3: Não ter contato físico com nenhuma pessoa

Chegamos ao terceiro dia do experimento. Dessa vez, me propus a evitar o contato físico com qualquer pessoa. O início dessa atividade já  foi de uma forma um tanto desastrosa: bêbado, na praia, com amigos. Logo nesse início, ao saberem da minha atividade, já quiseram me fazer “errar”.  Durante o dia, dois momentos de maior sociabilidade foram o almoço no shopping e ir para a aula, no início da noite.

Essa atividade vai para um caminho até agora não explorado: a ação do observador diante de uma regra pré estabelecida. No caso, como as pessoas reagem ao saber que não posso tocá-las. Isso remete à uma atividade muito comum no ramo da performance: a influência do observador enquanto parte da performance, seja ela com ou sem regras nesse sentido. No meu trabalho performático em particular, a existência de interatividade é bem comum, mas com um protocolo bem delimitado. Muitas vezes, tal protocolo não era respeitado, assim como em performances sem necessidade de participação externa.

Em uma visão mais “dogmatizada” da performance, o pensamento é de que qualquer imprevisto que ocorra faz parte da obra, complementando-a e talvez até se tornando o ápice do trabalho. Mas a minha experiência real com a situação é um pouco diferente. Minha personalidade controladora as vezes tende a idealizar a obra de uma forma que talvez nem segundo o meu protocolo chegue no ponto esperado, com ação alheia então, surpresa total. E essas novidades no trabalho, quando vistas tanto de forma positiva quanto negativa acabam por me tirar do meu centro, comprometendo a minha conexão com o trabalho.

Encontramos então um ponto de observação no performer que vos fala. Talvez eu necessite apenas estar menos fechado numa idealização e entender que não é meu o controle da performance, pois sou só um corpo que inicia uma ação, gerando reações maiores que eu.

Em busca do estado de espírito performático perfeito – Atividade 2: olhar pessoas fixamente nos olhos

Dando continuidade nas atividades, hoje venho expor a experiência de olhar fixamente nos olhos de quem eu converso. Obviamente, a execução dessa atividade não é nenhuma tortura, mas pode remeter a diversas discussões. Descrevendo o meu dia, domingo iniciou com pouca sociabilidade. Por volta das 17h recebi pessoas em casa, de noite saí com amigos para um bar, enfim, oportunidades de experimentar.

Contato visual remete a muitas interpretações, dependendo, é claro, de fatores circulantes aos olhos. O senso comum credita a quem não “olha no olho” falsidade ou timidez. O contrário seria a sinceridade, atenção, confiança e, as vezes, sedução. Enquanto realizei a atividade, me senti envolvido com a pessoa, embora remetia a uma falsidade eminente na obrigação, desmentindo o pensamento comum.

Existia, em alguns casos, uma sedução (além do sentido sexual da palavra), uma conexão que era jogada por mim e devolvida pelo meu interlocutor. Esse sentimento que “bate e volta”, acho eu que, é um dos pontos mais importantes dessa atividade. Nesse mesmo dia, entrei em uma discussão com a artista visual Thaíse Nardim, em que ela se dizia numa posição oposta a mim: ao performar, entrava em uma conexão tão profunda consigo mesma, que acabava por não entrar em contato com o observador. Logo, minha “habilidade” de saber me conectar com o meu observador pode se tornar um fator positivo para o meu trabalho.

Enfim: eu consigo me conectar com o meu observador, isso é fato. Mas essa conexão tem que estar dentro de um contexto artístico. Meu desafio agora é dosar a conexão de forma a não sair da minha ação performática. É não precisar sair da performance para me relacionar com o observador. Agora é esperar os próximos capítulos dessa jornada, visto que, em dois dias, já consigo observar bem mais do que imaginaria.

Em busca do estado de espírito performático perfeito – Atividade 1: não falar nada durante 24 horas

Como dito no post anterior, ontem, sábado, me propus a não falar nada durante 24 horas. Sábado é um dia com métrica quase definida no meu estilo de vida atual: casa, aula, shopping, casa, bar [levando em consideração que só volto para casa depois da meia noite]. E foi nessa linha que eu andei.

Quem me conhece, obviamente deve saber que não houve êxito completo na minha atividade. Várias vezes durante o dia falei, perguntei, me esqueci completamente da ação. Numa visão de fora, o curioso era observar minha atitude punitiva, cobrir a boca, minhas faces de descontentamento ao lembrar, como se existisse  um prêmio final em caso de êxito, coisa inexistente aqui. Minha atividade teria como finalidade apenas a auto observação, compreensão de limites e fraquezas.

No final de tudo, a falha é exatamente o ponto em que eu queria chegar. Pois foi ela que me fez iniciar isso tudo. E daí eu me pergunto: por que a falha é considerada falha? Por que existe um problema aí? Ela faz parte do meu trabalho, ela foi o ápice da minha experimentação. Sem ela nem haveria nenhuma discussão para esse primeiro dia. Se a arte da performance se propõe a discutir, dentre outras coisas, os limites do corpo, em algum momento esse corpo deve demonstrar a fraqueza e é nela que está o foco, a discussão, a própria beleza mesmo.

Então eu volto ao meu problema inicial: a minha falha de concentração. Não estaria nisso a gênese de um trabalho performático totalmente íntimo, individualizado, próprio e único? É claro que me faltam referências para dizer se algum artista já se propôs a estudar isso, mas a minha concentração é algo que posso dizer que nunca foi testada artisticamente. Logo, essa experimentação já demonstrou a sua valia. Aguardemos os próximos capítulos. Até amanhã.

Em busca do estado de espírito performático perfeito

Como diz o post anterior, quinta -feira, dia 15, ocorreu a vernissage da minha instalação EXCLUSIVOINCLUSIVO, em parceria com o artista visual Elpídio de Paula. Na primeira meia hora de vernissage, realizei a performance “contato seguro” (em breve no blog). Foi uma performance minimalista, enfocando o corpo (uma das bases da arte da performance), com um programa simples. O ato foi filmado e, o artista que vos fala, ao assistir o vídeo, quase entrou em colapso com a própria falta de concentração. A partir disso, me propus a realizar uma série de atividades, algumas relacionadas ao meu próprio trabalho na arte da performance, outras foram “furtadas” das atividades propostas pelo Pierimro Epxremineto. Iniciando hoje, sábado, eu irei realizar uma atividade por dia, até completar uma semana (7 dias). Seriam elas:

Sábado: não falar nada durante 24 horas;

Domingo: olhar fixamente nos olhos de qualquer pessoa que estiver ao meu alcance;

Segunda: Não ter contato físico com nenhuma pessoa;

Terça: Realizar tarefas alternando o ritmo de hora em hora (uma hora fazer tudo em ritmo extremamente lento, outra hora, tudo em ritmo acelerado);

Quarta: Afixar uma mensagem por todo lugar que eu passar;

Quinta: Me mover desviando de todos os objetos possíveis, procurando mover o mínimo possível de coisas ao meu redor;

Sexta: Em todas as refeições, fazer misturas alimentícias fora dos padrões de normalidade.

Ao final de cada atividade, estarei postando quais os resultados, impressões, dificuldades e curiosidades sobre para, no fim, entender um pouco mais sobre como meu corpo e minha mente se relacionam com meu trabalho performático. Sintam-se livres para utilizar os comentários para nos comunicarmos.

Performance: E-mail

Performance realizada em 07/10/2011 no congresso Pensar,  no Centro de Atividades do SESC/TO, através do Núcleo de Pesquisa em Performance do SESC/TO.

Atrás de um semi-círculo de velas, o performer se colocou à disposição da interferência dos observadores, com as seguintes regras em um cartaz:

  • · Escreva uma mensagem em um dos cartões sobre o pedestal.
  • · Não assine, nem direcione a quem está enviando.
  • · Amarre ou no braço ou na perna do performer.
Tendo como fundo musical a introdução da música 30 Minutes – t.A.T.u. em looping, os observadores foram escrevendo suas mensagens e amarrando pelo corpo do performer com fita de cetim colorida. Após um tempo, o performer colocou à mostra uma segunda parte do cartaz, escrito “Tem mensagem pra você!”. A partir disso, ele foi tirando uma por uma das mensagens e entregando aleatoriamente aos observadores. Por fim, cortou todas as fitas de cetim com uma tesoura.
Através de uma performance/atividade lúdica o performer vem discutir, de uma forma romântica, as questões de comunicação em um contexto atual, utilizando de licença poética com a palavra “E-mail”.

Fotos: Arquivo Pessoal

Performance: Re-Flexo

Performance realizada em 07/10/2011 no congresso Pensar,  no Centro de Atividades do SESC/TO, através do Núcleo de Pesquisa em Performance do SESC/TO, tendo como performers Filipe Porto e Thaíse Nardim.

Tendo como objetos auxiliares dois espelhos encostados em uma coluna com suas faces voltadas para o exterior, os performes se colocaram cada um de frente para um espelho, usando apenas uma camiseta larga branca [e roupa íntima] e interagiram com seus reflexos de forma a se conhecer, admirar e até amar o que vê. Através dessa ação, o trabalho discute questões ligadas tanto ao relacionamento intra quanto interpessoal.

Fotos: Arquivo Pessoal

Performance: Receita para ser simpático ou Como criar um ritual

Performance realizada no SESC de Palmas-TO como atividade do Grupo de Pesquisa em Performance.

Fotos:  Arquivo Pessoal

 

Dentro de uma estrela de cinco pontas desenhada no chão , circulada por velas brancas, o performer se encontra, com 13 ingredientes: atum, mel, confeti, molho shoyu, batata palha, leite condensado, ketchup, anilina azul, colorau, erva doce, alho desidratado, ervilha e geléia de pêssego. Há também diversos envelopes com o nome dos ingredientes e dosagens aleatórias que vão de uma colher de café até 3 colheres de sopa. Na parede as instruções: os observadores devem pegar um envelope de ingrediente e um de dosagem, um por vez. Ao se sortear todos os ingredientes, o performer mistura os ingredientes e recheia um sanduíche. Nesse momento, é indicado aos observadores a cantar “Parabéns pra você” para que o performer coma o sanduíche. O performer come o sanduíche até pararem de cantar. Todo o processo tendo como fundo o som de telefone/internet discada.

Através desse trabalho o performer vem discutir as questões ritualísticas do cotidiano, através de signos de diferentes rituais, vistos na performance. Deixando espaço, é claro, para fruições em outros âmbitos.

Performance – Festival de Apartamento: Schadenfreude: alegria vinda do coração

Performance realizada no X Festival de Apartamento, em Campinas/SP, 02/07/11.

Fotos: Leandro Pena e Murilo de Paula

O performer iniciou sentado em um canto de sala enquanto se tocavam diferentes funks cariocas. Enquanto tocavam as músicas, ele foi escrevendo as palavras mais marcantes [na maioria das vezes, de cunho sexual] em folhas de papel sulfite. Ao ter uma quantidade suficiente de papéis escritos, o performer prendeu-os em um varal com fita de cetim, no canto da sala, estando atrás dos papeis. Posteriormente, tirou toda a roupa, se vendou com um lenço, iniciando a música It Ain’t You – Squirrel Nut Zippers, acabando o ato com o fim da música.

O prazer humano não está restrito ao que o senso comum chama de “bom”. Essa sensação ultrapassa qualquer juízo de valor, estando interessada somente na satisfação individual. Baseado nesse princípio, esse trabalho vem discutir o deleite perante o sofrimento alheio, com o auxilio de recursos como o funk carioca. Como diz o ditado alemão, “Schadenfreude é a alegria mais bela, já que vem do coração”.